Caminhar: entre sonhos e lições

Num certo dia de verão, enquanto fazíamos uma pausa na rotina para descanso e lazer na praia, de onde estávamos víamos no horizonte a plataforma dos pescadores em Tramandaí, nem sabíamos o que mesmo era, mas dois colegas e eu, movidos pela curiosidade, decidimos ir até lá . Ao observar no horizonte, para quem não estava acostumado com o horizonte praiano parecia que a plataforma não era muito distante, tudo plano, seria fácil chegar até lá. Tudo era novidade e jovem é naturalmente curioso e muitas vezes, como era nosso caso, aventureiros.

Saímos na direção, a caminhada se estendia e parecia que nunca conseguíamos chegar, mas persistimos, até que após uma longa caminhada, enfim chegamos a tal plataforma, cansados e com muita sede. Tentamos seguir por ela sobre o mar, sem sucesso, não tínhamos nem dinheiro, nem documentos, aliás, nem água, nem nada que nos amparasse além das próprias pernas que já estavam cansadas. Nem tudo foi frustração, conhecemos, admiramos o que para nós era novidade. Mas ainda tinha o retorno para casa. Quem muito longe foi, sabe que voltar é exigente.

Num pequeno exemplo, uma lição de vida. Olhamos o horizonte, contemplamos a beleza, planejamos, nos organizamos, por vezes mais prevenidos para as surpresas, por vezes nem tanto, traçamos a rota e nos pomos a caminhar. Assim vamos com fé, em busca de nossos objetivos, de nossos sonhos. Há quem foque apenas no objetivo final, mas também tem aqueles que aproveitam cada metro da paisagem ao seu redor e ainda há aqueles que por uma ou outra razão, se dispersam-se do foco e ficam pelo caminho. Claro, existem imprevistos na caminhada, mas a aos humanos é dada a capacidade de nos adaptar, de improvisar, desde que se mantenham o foco e a persistência.

A chegada revela suas maravilhas e também suas surpresas e ao mesmo tempo renova para novas e constantes buscas. Nem tudo é como imaginamos, mas também não há que frustrar-se, decepcionar-se, acima disso, aproveitar as lições, transforma-las em crescimento. Há percepções para vivenciar e alegrar-se que só vê quem alcança os objetivos. Quem se deixa levar pela decepção, permite que “morra” ali seu sonho, quem tira as lições continua se fortificando e aprendendo. No exemplo acima citado era apenas uma caminhada de algumas horas. Mas pode ser um curso, uma faculdade, uma profissão ou um “investimento” de uma vida toda.

O modo de viver e de ver a vida e seguir nesse percurso é que vai nos mostrar uma ou outra dimensão, nos mostrar quem somos, como estamos. Há quem possa sentir-se frustrado apenas, cansado, desanimado pelo caminho. Há quem espera um caminho fácil e diante das dificuldades acaba parando pelo caminho. Mas, há ainda quem que tenha dispensado muito esforço, não deixa se abater e veja o lado bom da “chegada”, o aprendizado de uma caminhada e a paisagem no caminho contemplada. Sempre lembrando, a “chegada” torna-se também um constante novo ponto de partida.

Nunca nos esqueçamos das lições: em tudo aprender, a todo momento buscar crescer. A vida nos oferece lições todos os dias. Se colocamos na balança os sonhos e lições, o normal é que vejamos mais conquistas do que fracassos, desde que usemos as lentes corretas. Algumas conquistas planejadas, outras quase inesperadas, frutos da graça de Deus, nem tão pensadas, embora todas construídas, pequenas e grandes.

Não há receitas prontas, apenas dicas, aprendizados e um pequeno segredo: para os sonhadores com fé não há caminhos com barreiras intransponíveis. Lembro-me da própria infância, um fato pitoresco contado por meus pais: com dois a três anos eu ficava na sombra com meus brinquedos enquanto eles seguiam lavoura adentro capinando no calor do verão. Como as plantações, normalmente de milho e soja, nessa época eram mais altas que eu, procurava a última linha capinada e seguia por ela. Sabia que por esse caminho chegaria até eles. O que me atrapalhavam eram as pedras grandes que estavam no caminho, ficava ali plantado por medo de perder aquela linha e não a encontrar novamente. Ali eu ficava, chamava, gritava e se meus pais não escutassem, por vezes chorava.

Na infância não sabia desviar das pedras, por sorte vem a vida adulta e nos ensina que para alcançar nossos sonhos temos “algumas pedras” no caminho, mas também nos fortalecemos na fé e aprendemos a arte da resiliência e da persistência. Quando não encontramos uma forma de ultrapassar as barreiras, clamamos a Deus, por vezes em oração, em gritos ou em choros, todas formas válidas de chegar ao colo acolhedor e misericordioso do Senhor.

A sabedoria e o desafio está em saber desviar, encontrar uma volta sem nos perder. Verdade também que nem sempre entendemos essa realidade, há momentos que queremos tudo ao nosso modo e no nosso tempo, acreditam que os imprevistos são inaceitáveis, intoleráveis, com isso podemos nos perturbar. Por vezes há quem possa chegar ao extremo de “culpar” a Deus ao invés de clamar com fé. Não é algo só nosso, o próprio apóstolo São Tomé, tido como incrédulo, mas que viveu intensamente a dor interior por conta da paixão e morte de Jesus (Jo 20, 24-29).

Enfim, o que você sonha? Acredite nos teus sonhos, acredite em você e na sua capacidade de se superar a cada dia: pelas suas forças, mas principalmente pela graça de Deus. Pode até duvidar de outros que estão a tua volta, mas nunca duvide da tua própria capacidade e do Deus contigo e não convém, para o teu próprio bem, que duvide de quem acredita no teu melhor. Lembre-se das palavras de nosso estimado Papa Francisco: “Devemos seguir três simples posturas: conservar a esperança, deixar se surpreender por Deus e viver na alegria”. Viva, sonhe, tire lições, lute, busque suas conquistas e as comemore com alegria e invista todas suas energias na superação das frustrações. Deus está contigo, não tão somente no desafio, mas te abençoando e cuidando em todo seu caminhar.

Paz e bem!


Frei Rodrigo Cichowicz.

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