Estamos indo a falência?

Talvez alguns tenham sido pegos de surpresa quando o Estado começa novamente a aumentar as restrições de movimentação pública e abertura do comércio. A mim não causou nenhuma surpresa. Embora não desejasse isso de modo algum, me surpreenderia se não acontecesse. Parte da população continua acreditando que é apenas uma gripezinha, só vai acreditar quando sentir na própria pele. Aí se arrependerá, se der tempo. Seria possível abrir comércio, parques, igrejas, desde que o povo tivesse o bom senso de saber se cuidar. Tivesse, pois constato: não tem, boa parte não tem.

Se alguém questiona, posso exemplificar, falo do que vejo:

- Mais da metade das pessoas estão andando por todo lugar bem a vontade sem usar máscara. Outros, caminham com máscaras na mão ou no pescoço apenas. Alguns ainda reclamam e causam escândalos quando não podem entrar em mercados, transporte público ou igrejas sem usar.

- Ir no mercado e encontrar famílias inteiras, com crianças correndo pelos corredores é costumeiro, mesmo que a orientação é que vá apenas um da família.

- As festas clandestinas em momento algum pararam. Que tipo de gente ainda insiste em frequentar?

- Há quem insiste que os shoppings devam abrir. De outro lado quando abriu, os lojistas reclamaram que o povo que vai só quer passear, não estão comprando nada. Por que precisa ir, que doença é esta?

- Os parques continuam sendo frequentados e muitos sem usar proteção alguma.

- Há ainda aqueles que insistem em fazer aglomerações, manifestações e até invadir hospitais em plena pandemia.

Isto entre outros, mas quero ir mesmo um pouco além pra não ficar no raso. Ouço o discurso: “estamos indo à falência. Olha quantos pobres estão passando fome. Querem que todos morramos de fome”. Me desculpem, mas pobreza desde sempre houve. Houve pobres e muitos pobres, talvez quem estivesse com o nariz empinado não os enxergava, ou se os enxergava os chamava de vagabundos. Eu próprio e minha família já fomos assim caracterizados, pelo simples fato que recebíamos assistência do governo.

Hoje o discurso mudou, estes usam os mesmos pobres para justificar seu desespero em não querer reduzir seu padrão de vida. Há momentos em que não há outra alternativa, precisamos enfrentar as dificuldades e lutar juntos. Os pobres nos dão grandes lições nisso, sabem partilhar o pouco que tem e lutar juntos.

Estamos indo à falência? Se seguirmos este caminho sim. Temos opção de escolha. Não a falência econômica apenas, mas a falência da humanidade, já abalada e presente muito antes da pandemia: a falência de espírito humano e caridoso, falência de valores, falência de ética e princípios. Sempre lembrando, não são todos, mas me preocupa quando vejo que muitos corações se tornaram superficiais, insensíveis e egocêntricos. Para mim, estes já faliram e estão levando outros para o mesmo caminho. A falência econômica será apenas mais uma de muitas consequências.

Isto é motivo para perder a esperança? Não, jamais. Talvez em poucos momentos quanto hoje a solidariedade e o cuidado se fizeram tão presente. Tenho diariamente buscado doações, vindas de diversas pessoas e lugares de nossa cidade para partilhar com aqueles que mais precisam. A grande maioria está desperta e é justamente para isto que precisamos acordar como humanidade. Aqui se encaixa aquela famosa frase: “Não basta deixar de fazer o mal, é preciso fazer o bem”.

Bem verdade também que alguns, poucos, estão fazendo campanhas em seus condomínios de luxo por que tem medo que os pobres da favela invadam e saqueiam suas casas e apartamentos. Esse pensamento chega a ser cômico. Há muito tempo, pelo menos desde que nosso país foi “descoberto”, nosso patrimônio é saqueado. Mas ironicamente, não são os pobres que saquearam e saqueiam. Eles também e ainda mais do que os que gozam de uma condição digna de vida, são saqueados diariamente. Os saques mais violentos para uma sociedade não vem dos pobres, vem dos que usam ternos e trajes finos. Os mais pobres além do financeiro, são saqueados também em sua dignidade.

Falo a partir da periferia. Embora institucionalmente tenha seguranças, falo como um deles, entre eles. Assim nasci, fui criado, educado, residi, resido e convivo com eles. Desde a infância tive que enfrentar barreiras, preconceitos, daqueles que vejo os pobres enfrentando. Hoje com uma diferença, da minha origem, minha história, minhas lutas não me envergonho mais. O faço pela minha fé, por Cristo, pelo espírito de São Francisco o qual fui chamado e me inspirei para seguir a Cristo.

Por estes e outros motivos tenho dó daqueles que querem governar com seriedade. Independente de ideologias, é a vida que está em jogo. É a humanidade que está no foco. Para muitos, talvez a maioria, é compreensível, para outros é difícil falar em humanidade quando o dinheiro é o que reina sobre eles. Impossível não lembrar aqui a famosa frase de Jesus: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). E embora pouco citada, no versículo seguinte impressiona a reação dos fariseus que tinham preparado uma cilada para Jesus: Ouvindo isto, eles ficaram espantados, certamente envergonhados, e deixando Jesus, foram embora. Não caiamos nós também na cilada: os vilões não são os governantes que estão fechando o comércio, são as pessoas que fecharam seus olhos e seu coração para a humanidade.

Enfim, creio que é tempo de profecia e esperança. Tempo de anúncio de um novo modelo de convivência social, mais humano, mais solidário, mais justo. É possível, com a união das pessoas de boa vontade. Muito é possível fazer e estamos vendo isto. Onde há o pecado, fortaleçamos a fé e união para que a graça de Deus possa vencer.



Paz e Bem!


Frei Rodrigo Cichowicz


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