Maria de Nazaré: Agente necessário no evento da encarnação do Logos Divino

O mês de maio, além de ser dedicado a Maria de Nazaré, é o mês em que é celebrado o Dia das Mães. Maria, como Mãe do Redentor, é modelo de mulher e mãe para todas as mulheres. Ela é intitulada como corredentora da humanidade, pois teve papel de inestimável importância no evento da encarnação. Para que possamos refletir sobre o propósito em questão, teremos como ponto inicial o que a Igreja reconhece acerca do mistério redentor. Na Constituição Dogmática há a declaração de duas vias de redenção: (i) “a redenção objetiva, por meio da encarnação do Logos e da instituição da Nova Aliança mediante o sacrifício expiatório vicário de Cristo na Cruz”[1]; e (ii) “a apropriação passiva da obra de salvação de Cristo pelos crentes no acontecimento da justificação e da santificação pessoal”[2]. Para tanto, iremos tomar como orientação hermenêutica a primeira via, a saber, da redenção objetiva. É nela que encontramos a fonte e o conteúdo de toda a ação salvífica da pessoa de Jesus. E Cristo, então, se torna o meio em que Deus se autocomunica e manifesta a sua vontade diretamente na história[3].

Assim, deparamo-nos com a universalidade da vontade de Deus expressa na pessoa de Cristo que manifesta, por meio da singularidade do seu ser, a [co]semelhança com o gênero humano, atraindo todos a si.[4] “Em sua humanidade, Jesus é o caminho pelo qual a Palavra de Deus chega historicamente aos seres humanos e também o caminho pelo qual os seres humanos podem chegar a Deus”[5]. Portanto, Ele é o mediador entre o Pai e a humanidade, revelando a vontade salvadora e amorosa de Deus. Há, então, uma comunicação entre o divino e o humano. Essa é possível por meio da predicação necessária do sujeito da oração: Cristo, no amor e por amor, é o mediador entre a vontade Deus e a humanidade e, nessa vontade manifestamente amorosa, há a revelação comunicativa do Pai com o gênero humano: “Deus se revela por meio de seu Filho no Espírito Santo, para que os seres humanos possam dizer-lhe no Espírito por meio do e com o Filho: Abba, Pai[6].

Nessa questão temos a presença necessária de Maria no mistério da redenção da humanidade na encarnação de Cristo[7]. Para tanto, tenhamos como pressuposto básico a maternidade virginal divina de Maria. Assim, há dois princípios a serem destacados da sua vida: (a) um princípio subjetivo que é vinculado a sua fé; e (b) um princípio objetivo que manifesta a sua subjetividade por meio do seguimento de seu Filho, Jesus Cristo.

(a) Pelo princípio subjetivo temos em foco a fé de Maria que, no ato do anúncio do anjo, deliberou a favor da encarnação do Logos divino por meio do seu corpo. Isso é evidenciado em vários momentos das narrativas evangélicas. Um claro exemplo, além da anunciação, é a mediação de Maria nas Bodas de Caná[8]. Ora, a subjetividade decidida de Maria a conduz à objetividade de suas ações [ações concretas], em que adentramos no segundo princípio, (b) o objetivo. Com a sua primeira deliberação a favor da redenção do gênero humano, Maria se torna a primeira discípula de seu próprio Filho, tendo papel importante na comunicação entre Deus e a humanidade: ela gera o Filho de Deus. O impensado, o impossível [a priori], é concatenado em uma única Mulher capaz de tornar o impensado em realidade atual[9].

Isso é expresso na Constituição Dogmática do seguinte modo: “Pois a Virgem Maria, que na Anunciação do anjo recebeu o Verbo de Deus no coração e no corpo e trouxe ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor”[10]. Portanto, há a união dos dois princípios aludidos acima [(a) subjetivo e (b) objetivo], o que torna Maria verdadeiramente Mãe de Deus e do Redentor. É em vistas dessas ações da Nazarena[11] que, nos méritos de seu Filho, há a graça divina evidenciada à humanidade.

Desse modo, temos, no Evangelho de Marcos[12], uma belíssima confissão de fé na pessoa de Jesus Cristo como “o Filho de Deus”[13] e “Filho de Maria”[14]. Explicitamente Marcos fornece a confirmação da união hipostática de Cristo quando ele alude a filiação divina e humana de Cristo. A união dessas duas naturezas ocorre no Nazareno e, sua mãe Maria, nessa perspectiva, se torna o meio necessário da concretização desse fato. Isso se dá porque o princípio motor da encarnação provém da vontade de Deus Pai [entendido como agente ativo ou causa eficiente] e da vontade de Maria. Ela, nessa perspectiva, é concebida como agente passivo [não apenas aceitando o sofrimento-de-ação, mas como “receptáculo” ativo volitivo]. Porém, o querer [velle] de Maria não é um querer absoluto [simpliciter], mas um querer sob determinado aspecto [secundum quid] e é na designação da vontade de Deus no ato da Anunciação, que ela delibera sobre a possibilidade da vontade divina e decide por querer a e não por não querer a.[15] Portanto, Maria, em seu ato volitivo, evidencia a sua liberdade e, como criatura de Deus assim como toda a humanidade, torna expressa a liberdade diante do Criador que todos nós possuímos. Nessa comunicação, não apenas a nossa liberdade humana é posta em questão, mas também a própria liberdade de Deus que se manifesta com a decisão a favor da encarnação de Cristo.

Nesse sentido, destaco o Sermão da Natividade 396, 1 de Santo Agostinho: “Admira-te ainda mais: aquela que o deu à luz é mãe e virgem; o nascido não fala, sendo a Palavra”. São Basílio de Selêucia no séc. V em seu Sermão 39, 4 – 5, afirma que: “O Criador do universo, o todo-poderoso, nascido da virgem Mãe de Deus, uniu-se à natureza humana” e mais:


Corpo sagrado que abrigava o Senhor! Em Maria foi anulada a constatação de nosso pecado, pois foi nela que Deus se fez homem, permanecendo Deus. [...] Gabriel veio à virgem Maria sem deixar o céu, e o Verbo de Deus que abraça toda a criação, enquanto nela esteve encarnado, não cessou de ser adorado no céu. [...] Ó virgindade pela qual os anjos, inicialmente distanciados do gênero humano, se alegram com razão por serem colocados a serviço dos homens! E Gabriel exulta por ser incumbido de anunciar a concepção divina, porque ele percorre sua mensagem de salvação que invoca a alegria e a graça. Alegra-te cheia de graça, assume um rosto jovial, pois é de ti que vai nascer a alegria de todos, com este que, depois de ter destruído a potência da morte e ter dado a todos a esperança de ressuscitar, nos libertará da antiga maldição.[16]

Tanto Agostinho como Basílio de Selêucia afirmam que a maternidade virginal de Maria é o princípio da ação de Deus na história da humanidade. E mais, que em nossa Mãe Santíssima é constatada a anulação do nosso pecado e é por intermédio dela que o evento da encarnação de Deus é possível: o Verbo de Deus que abraça toda a criação. É na encarnação que Maria concebe e gera a Igreja e, como consequência necessária, todo o gênero humano. Etimologicamente conceber significa acolher ou abraçar junto e é nesse ato de acolhida que Maria não somente se tornou a Mãe do Redentor, mas também a Mãe de toda a humanidade.[17]

Com isso, retornamos àquela inferência primeira, a saber: (i) “a redenção objetiva, por meio da encarnação do Logos e da instituição da Nova Aliança mediante o sacrifício expiatório vicário de Cristo na Cruz” que, no plano redentor de Deus, Cristo, entendido como Logos divino e como Verbo [co]eterno do Pai, encarna no seio da humanidade por meio de Maria. É no evento da encarnação, que Maria demonstra a sua e a nossa liberdade que, na sua deliberação, aceita a vontade do Pai, tornando-se, então, a Mãe de Deus e do Redentor e, por consequência, a Mãe de todos nós. Como diz Cantalamessa em sua reflexão inspirada pela Carta aos Efésios[18]: “Nós que havíamos já sido concebidos como filhos adotivos do Pai na eternidade, agora somos concebidos como filhos também por uma mãe e igualmente no tempo”[19]. Sendo assim, “Nós, portanto, fomos concebidos – a Igreja foi concebida – por Maria. [...] [Maria] nos concebeu com o amor e no amor; aceitou-nos, nos quis”[20]. A mesma Mulher de Nazaré que, por amor e no amor, gerou o Cristo, gerou-nos também.

Que neste mês dedicado à nossa mãe Maria Santíssima possamos, com o seu exemplo, entregar e consagrar a nossa vida a Deus por intermédio de seu Filho, Jesus Cristo.



Feliz dia das mães e que Deus voz dê sua paz.


Frei Uellinton Valentim Corsi, OFM

[1] MULLER, Ludwuig Gerhard. Dogmática Católica: Teoria e prática da Teologia. Trad. de Volney Berkenbrock; Paulo Ferreira Valério et al. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 269. [2] Id. Ibidem. [3] Id. Ibidem. [4] Id. Ibidem. [5] Id. Ibidem. [6] Id. Ibidem. [7] MULLER, 2015, p. 340.: Uma síntese dos seis Dogmas Marianos é apresentada na Constituição Dogmática da Igreja: A virgindade de Maria: ela concebeu e deu à luz ao Filho eterno de Deus sem intervenção sexual de um homem, unicamente pela ação do Espírito Santo. Esse aspecto virginal de Maria é mantido antes, durante e após o nascimento de Jesus – virginitas ante, in e post partum; O título de Theotokos [Mãe de Deus ou Deípara]: é explicado pela união hipostática de Cristo, ou seja, na pessoa de Cristo há a consolidação história da divindade de Deus Pai na humanidade, unindo, portanto, o humano ao divido; A imaculada conceição de Maria – temática cara para nós franciscanos: Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro momento de sua existência no seio de sua mãe, não por mérito seu, mas por graça singular conferida a ela; A assunção gloriosa de Maria aos céus: ela alcançou, por meio da graça de Cristo, a consumação na totalidade de sua existência humana [união do corpo e alma] e foi assumida na glória celeste de Deus; Maria como intercessora: esse é um elemento bom e útil da piedade cristã conservado ao longo dos séculos que manifesta a devoção à Mãe de Deus; Maria como modelo de fé, ser humano e de Igreja. [8] Jo 2. [9] LumenGentium, 53. [10] Id. Ibidem. [11] Alusão a Maria de Nazaré. [12] Iremos adotar a nominação de Marcos como o autor do referido Evangelho, porém, não estamos alheios a constatação de haver uma comunidade no labor textual presentes nos Evangelhos. [13] Mc 1,1. [14] Mc 6,3. [15] Para compreender melhor esse aspecto voluntarista nas ações humanas numa perspectiva franciscana-scotista, Cf. PICH, Roberto Hofmeister. Coação, limites da voluntariedade e batismo: o fundo filosófico-scotista de práticas batismais por missionários franciscanos na América Latina do século 16. In: SOUZA Draiton Gonzaga de.; BAVARESCO, Agemir; TAUCHEN, Jair. (Orgs). Sub specie aeternitatis: Festschrift for Nythamar de Oliveira. Porto Alegre, RS: Editora Fundação Fênix, 2020, pp. 691 – 694. Além disso, Maria questiona o anjo sobre a possibilidade real dessa designação, porque ela não conhecia homem algum. Após essa atividade deliberativa, ela expressa externamente a sua aceitação com a famosa frase fiat voluntas Tua [seja feita a Tua vontade], Cf. Lc 1, 26 – 38. [16] SÃO BASÍLIO DE SELÊUCIA. Sermão 39, 4 – 5. [17] CANTALAMESSA, Raniero. O Verbo se faz Carne: reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A, B, C. Trad. Cornélio Dall’Alba. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2012, p. 511. [18] Ef 1, 4 – 5. [19] CANTALAMESSA, 2012, p. 512. [20] Id. Ibidem.

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