Provocações sobre nosso tempo e as relações que tecemos

Esse tempo de isolamento, por que não dizer de recolhimento, faz cada um de nós pensar sobre vários assuntos, afinal temos que nos ocupar com alguma coisa. Uma questão que esse tempo nos provoca é repassar as relações que estabelecemos e que vínhamos construindo. Os últimos quatro anos, de modo particular, foram intensos no que tange defender ideias e pontos de vistas individuais, sem muito se preocupar com o coletivo e o outro. O que se observou, especialmente nas redes sociais, foi um aumento exponencial da maneira agressiva como as pessoas de modo geral se apegaram as próprias convicções e trataram de maneira hostil o outro conhecido ou desconhecido (desde que estivesse on-line).


No entanto, da noite para o dia, todas as soberbas individuais pareceram virar de ponta cabeça e gestos simples, como apertar a mão e dar um abraço, se tornaram estranhos e proibidos sob pena da própria integridade física. Gestos por excelência de afeto e confiança se transformaram em gestos patéticos de encostar cotovelos ou tocar sutilmente o pé com outro pé do interlocutor. Nesse momento nos damos conta o quanto algumas coisas simples nos faltam e o quanto nos humanizavam, nos colocavam em uma relação dinâmica, proativa. A pergunta que me ocorre é: Será que levamos muito a sério o filósofo René Descarte(1596 - 1650) e sua máxima “Penso logo sou”? Pensamos possuir demasiada importância e esquecemos que somos a medida que ou outro também é. Com a ameaça eminente que o outro venha a não ser ou não estar, sentimos nossa própria existência ameaçada, isolada, recolhida, estranhada. O referido filósofo vai além em seu questionamento. “Mas o que sou eu, portanto? Uma coisa que pensa. O que é uma coisa que pensa? É uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente”[1].


Como humanidade estamos sentindo o peso da existência, as relações que nos humanizavam estão em quarentena durante a quaresma, sem que se possa ir ao templo religioso para nos sentimos “irmanados”. Nesse momento o eu individual percebe que as cosias vão muito além de um raciocínio bem formulado, um argumento bem construído. Individualmente não conseguimos dar respostas para questões complexas, pois é na relação e na coletividade que se encontram nossa forma plena de ser e existir.


Talvez esses dias estão servindo para cada pessoa se dar conta que a sua forma individual de conceber o mundo precisa dar espaço para a forma de compreensão do outro. É um repassar “do sí mesmo” percebendo que é melhor viver junto, ainda que o outro veja o mundo desde outro ponto de vista, do que estar isolado. Que algumas compreensões de sociedade e relações, são equivocadas e apenas eliminam o mais fraco e desprotegido. Que a religião não deve ser comércio, lugar de doutrinação e incitação à violência porque o seu propósito último é transformar as pessoas em indivíduos mais humanizados. Que Jesus Cristo revelou todo o amor de Deus para que a humanidade caminhasse nesse Amor de diferentes caminhos e de modo nenhum, estes caminhos, passam pelo acúmulo de bens as custa do esgotamento da natureza.


Momentos como o que estamos vivendo deve servir para retomar a esperança, fazer uma retrospectiva de nós mesmos enquanto indivíduos e como coletividade, até por que, não existe coletividade sem individualidades. Talvez chegamos a uma altura de nossa caminhada enquanto humanidade que nos damos conta que a exaltação demasiada do lucro e do indivíduo não é totalmente producente como se achou que era. Se faz necessário repensar as relações que estabelecemos nos espaços onde habitamos, perceber que o dinheiro e o lucro não são tudo na vida, precisamos dele para viver e se locomover, no entanto não deveria ser ele que determina nossa vida e relações. Esse tempo serve para retomarmos a , pois a partir dos ensinamentos das Sagradas Escrituras e dos grandes sábios, é no tempo de aridez existencial que a fé é provada. É no recolhimento do fundo da caverna que conseguimos perceber a passagem da brisa suave, essa experiência acontece quando acreditamos que nossas forças chegaram ao fim (“come bebe, que tens ainda uma longa jornada”) Por fim esse tempo é de viver e cultivar o amor, um amor que compromete com a promoção e proteção da vida, com os pobres que mais padecem as agruras da vida, é um “ver e ter compaixão”. Para que depois que tudo passar não fiquemos devendo nada a não ser o amor mútuo.

Frei Patrício Ceretta, OFM


[1]R. Descartes, Meditações, p. 103. - DESCARTES, René. Meditações. Discurso do Método. Meditações. Objeções e respostas. As paixões da alma. Trad.: B. Prado Jr. e J. Guinsburg. Prefácio e notas Gérard Lebrun. São Paulo, Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores).

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