A SAUDADE DO BEM-TE-VI

Certo dia, estava lendo um livro dentro do carro enquanto aguardava meu confrade terminar seu trabalho e retornarmos juntos para casa. Eis que lá pelas tantas, um bem-te-vi pousa sobre o retrovisor do carro onde eu estava. Ficou ali por um instante até me perceber ao seu lado, a menos de um metro. Alçou voo em direção a uma árvore próxima. A partir deste momento aquele bem-te-vi me chamou atenção pelo seu canto e pela sua ação. Voava até os carros próximos, se recostava sobre os vidros, tentava bicar onde encontrava seu próprio reflexo e retornava para a árvore onde cantava, assim sucessivamente por mais de hora. Me desconcentrei da leitura num certo momento.

Deixei de lado o livro e passei a observar o pássaro com maior atenção. Já não me contentei a olhá-lo como um pássaro “agitado ou maluquinho” apenas. Seus gestos e cantos repetitivos e insistentes me indagavam. Pensei: São Francisco tinha o dom de falar com pássaros e animais, mas eu não, sei ler livros, não pássaros. Ao mesmo tempo me esforçava para entender a linguagem daquele bem-te-vi.

Aquele pássaro incansável e solitário parecia ter um objetivo muito claro. Como alguém não conseguiria entendê-lo? Estaria ele revoltado, triste, feliz? Estaria brincando apenas? Ou talvez estivesse tentando afugentar o seu algoz? Eu estava ocupando meu tempo na leitura de um livro enquanto esperava o irmão, e o pássaro fazia aquilo com qual objetivo? Havia muitas possibilidades. Ria de mim mesmo e pensava: “São Francisco, São Francisco, me ajude, posso estar parecendo doido, mas quero entender este pássaro”.

Após um certo tempo de observação atenta, quando com algum esforço consegui me desligar do meu mundo comecei a perceber sinais de afeto ali demonstrados. Será isso mesmo? me perguntava. Sempre aprendi que animais não pensam, mas eles podem sentir. Já vi cachorros, gatos e outros animais domésticos demonstrando afeto, mas pássaro em seu próprio habitat seria a primeira vez.

O bem-te-vi ao ver “o outro” pelo reflexo, que lhe era muito familiar, sem saber que era ele mesmo, o queria tocar, se recostar, talvez convidar para voarem juntos. No entanto, “o outro” não saia de dentro do carro para o acompanhar, mesmo que ele voltasse até a árvore próxima e insistentemente o chamasse cantando. Seu canto passou a soar nos meus ouvidos de saudade e de esperança. Cada vez que o pássaro retornava ao carro havia uma alegria expressa, mesmo que incompleta, ali demostrava também saudade e se transformava em esperança de um reencontro maior.

Pensei por um momento que poderia estar influenciando minhas próprias intuições, pois enquanto esperava o frei fazer encomendações, me encontrava numa área de linda natureza em um estacionamento de cemitério, e antes de começar a tentativa “maluca” de compreender o bem-te-vi eu lia um livro sobre a eternidade. Mas creio que não, havia sentido naquela intuição ou compreensão sobre o bem-te-vi.

Pássaros e humanos, animais e pessoas, como se assemelham! Muito mais do que imaginamos. Com certeza valeu a parada na leitura de um livro para buscar ler uma pequena criatura de Deus. Me entendi quase como um analfabeto, mas desejoso de aprender sempre um pouquinho mais com São Francisco de seu amor pela criação e pelo Criador. Nos refugiamos na racionalidade, aquilo que nos distingue de toda criação e pouco nos oportunizamos à sensibilidade que tanto nos assemelha.

Enfim, como é bom contemplar a suavidade e harmonia da natureza, com suas formas distintas, mas tão simples de linguagem. Ler livros é fácil quando já fomos alfabetizados. Do mesmo modo também é preciso alfabetizarmo-nos pelo afeto e sensibilidade com a criação e voltarmos à dimensão do cuidado com esta. São Francisco nos ensina como irmos ao encontro “do outro” com sensibilidade e paz interior. Ele que compreendeu a relação com a natureza na sua integralidade como extensão de si mesmo, para além do lucro ou do prejuízo comercial. Novas relações se estabelecem, quando nos permitimos crescer e aprofundar nossa capacidade de empatia.

Frei Rodrigo Cichowicz

Paz e bem

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