As maçãs machucadas

Por ser alimento saudável, normalmente temos frutas para consumir em casa. Mas há um tempo atrás, comprei uma sacola de maçãs que me deixou intrigado. A partir de um olhar rápido, peguei as maçãs no mercado. Elas estavam belas e brilhantes, pareciam bem apetitosas.

Ao chegar em casa, desfeitas as sacolas das compras, lavei rapidamente uma maçã e comecei a comer. Percebi então que ela estava toda batida e machucada. Algumas partes, em seu interior, sequer eram possíveis de aproveitar. Fui olhar as demais, aparentemente não havia nada de diferente. Pensei logo ter sido “premiado” em escolher exatamente a machucada.

Estava enganado, mais tarde e nos dias seguintes ao ir consumindo as outras maçãs fui percebendo que todas, lindas, brilhantes, estavam interiormente machucadas, todas elas. Externamente só um olhar muito atento e um tato muito sensível poderiam detectar alguns pequenos sinais.

Trocar já não era mais possível, uma a uma fomos aproveitando o que podíamos. Mas uma pergunta veio à tona: como as maçãs que estavam assim belas, eram internamente tão machucadas? Não encontrei respostas, apenas embarquei em mais perguntas. Resposta apenas uma: se soubesse que estavam assim, não as teria comprado.

Por alguma causa externa as maçãs ficaram assim: manejo, transporte ou outro motivo. Neste momento não haveria mais iria mudar. Os machucados com o tempo só aumentariam até elas por inteiro se estragar. Uma pena, frutos produzidos, e após um longo processo do cultivo à colheita, estragados.

Mas isso poderia estar acontecendo só com as maçãs? Apenas as maçãs poderiam estar machucadas? E se pensássemos nas pessoas, não começando pelas outras, mas por nós mesmos. Como aparentamos e como estamos verdadeiramente em nosso interior? E como olhamos para o outro que está ao nosso lado, muitas vezes convivendo diariamente conosco?

Somos induzidos constantemente a zelar pelas aparências, mesmo quando isso possa se contrapor ao cuidado com a saúde. Sim, estamos na era da estética, no tempo das aparências. De outro lado quando se trata de viver no sentido mais profundo da expressão, a estética é insuficiente.

É interessante observar-se no espelho. Mais relevante e necessário ainda é se olhar a partir daquele “espelho” que faz refletir o nosso próprio interior. Santa Clara de Assis nos ensina muito. Há uma expressão popularizada que pode ser aqui compreendida: Vê se te enxerga! Neste caso não pejorativamente, mas é formidável nos enxergar, nos ver a fundo e ao olhar sobre o nosso mais íntimo vamos perceber também o quanto somos movidos e nos relacionamos ou o mais triste, julgamos baseados na superficialidade.

Pode parecer óbvio, mas em tempos de superficialismos há também de se dizer: somos muito mais do que meras maçãs. Quando me olho, ou olho o outro apenas superficialmente, corro o risco inclusive de vê-lo como produto, útil ou inútil, bom ou ruim. A analogia aqui remete à particularidade própria de cada um. Observar nosso interior é reconhecer nossa essência. Quando percebemos nosso valor somos capazes de verdadeiramente nos cuidar, de mim e do outro.

Como dito acima, maçãs não tem opção, nós temos. Temos opção de não permitir que nos machuquem e caso aconteça, temos opção de curar nossas feridas. Temos opção de não ferir as pessoas com quem convivemos e quando ocorre, por nossas fragilidades, podemos reconhecer e ajudar a reparar o erro e curar as feridas de outrem.

Indo além, no caso das maçãs, se soubesse que estavam machucadas, não as teria comprado. Diferentemente, pessoas machucadas não devem ser excluídas, ignoradas, descartadas, mas cuidadas. Assim como todos gostamos de ser cuidados em nossas fragilidades e feridas, todos devemos também cuidar. Mais elegante e virtuoso ainda é cuidar para não machucar, para não ferir. Novos modos de relações, nova sensibilidade por vezes se faz necessária.

Enfim, nos permitamos olhar para nosso interior, pode parecer simples, mas é uma ação que existe coragem, ousadia. Nos permitamos curar nossas feridas, nossos machucados, é uma ação que exige sensibilidade e tempo. Nos permitamos sentir o interior de quem nos cerca, é uma ação de profundo respeito e empatia. E tudo isso nos leva à maior das virtudes: nos permitamos viver, esta ação contínua nos exige fé, esperança e amor. Riqueza de sabedoria expressa pelo Apóstolo Paulo em 1Cor 13, 13.


Paz e bem


Frei Rodrigo Cichowicz OFM


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