Duns Scotus, Mulher Maravilha e as nossas escolhas

O novo longa dirigido por Patty Jenkins intitulado de Mulher Maravilha 1984, traz uma proposta inicialmente modesta. De imediato, o expectador tem a sensação de se tratar de um filme um tanto quanto monótono e sem grandes emoções. Sem dar spoiler, pretendo tecer uma pequena crítica filosófica sobre o enredo.

O longa demonstra a dualidade interna presente na natureza humana em que a pessoa ora deseja algo bom e ora mal. Isso fica claro com a evidente influência que uma pedra dos desejos exerce sobre as personagens do longa. A própria Diana, interpretada por Gal Gadot, sofre influência dessa pedra que, em determinado momento, deseja silenciosamente que o seu grande amor, o Steve Trevor que é interpretado por Chris Pine, retorne à vida e isso acontece.

Não irei me ater no desfecho completo do filme, mas em alguns detalhes. O desejo mais profundo de Diana é ter o seu grande amor de volta e, com o desejo atendido, ela começa a perder os seus poderes. Com o enfraquecimento da MM (Mulher Maravilha), a iniquidade, proporcionada pela personagem de Maxwell Lord, começa a tomar conta de toda a realidade mundial. É interessante como que uma pedra do desejo manifesta a mediocridade presente em nossa humanidade. Os desejos mais profundos presentes em nosso ser são manifestados por essa pedra e torna visível a nossa fragilidade.

Porém, é impressionante a leitura que Diana efetiva dessa preciosa e controversa pedra. Após perceber que o seu desejo estava lhe custando o que lhe torna ser o que é, ela intui que a pedra do desejo é fundamentalmente alicerçada sobre a mentira. A mentira entendida como uma possibilidade daquilo que não é; como uma vida diferente da que estamos vivendo neste mundo. Acredito que essa interpretação possa ser assimilada a uma teoria que, na Filosofia, denominamos de teoria dos possíveis e que se aproxima da moderna definição dos mundos possíveis.

Duns Scotus, no séc. XIII, ao tratar sobre o tema da liberdade humana fala da possibilidade contingente de nossas deliberações. A contingência da escolha no tempo presente, para o autor, é cara, pois é por meio dela que somos livres e responsáveis pelos nossos atos. A responsabilidade só é possível de ser imputada após a concretização de nossas escolhas. Então, quando falamos em liberdade, sob o prisma scotista, referimo-nos diretamente à contingência das coisas enquanto estão presentes a nós. As nossas ações, enquanto estão no tempo presente, poderiam ser diferentes do que são, pois, segundo Scotus, se quero algo agora posso simultaneamente não quere-lo e é isso que me torna livre: não ser determinado pela necessidade do presente, mas sim que o presente é contingente, que o que é pode ser de outra forma e essa possibilidade é conservada enquanto o ato está no tempo presente e a nossa capacidade volitiva pode escolher entre A ou B, ou seja, pode escolher entre realidades contraditórias. Ora, essas possibilidades não devem ser pensadas anterior ou posteriormente a determinado ato, mas sim simultaneamente no presente enquanto posso escolher por uma coisa ou por outra e, a partir desse ato volitivo, é que delineio a minha história (Cf. Ioannes Duns Scotus, Lect. I, d. 39, q. 1-5, n. 58 (ed. Vaticana, XVII, p. 499)).

Dada a contingência da nossa volição, com os desejos das personagens notamos que a realidade efetiva em que elas vivem desagrada-as, porém, é essa realidade que torna o que são como, por exemplo, Diana, uma personagem dotada de poderes, que é intitulada de Mulher Maravilha, que no primeiro filme escolhe destruir o vilão ao invés de voar e salvar Steve da explosão do avião. O ser é, mas como saber o que essencialmente torna o que ele é? O que de mais primordial temos que nos torna o que somos? A vida é feita de escolhas e, ousamos dizer, que são essas escolhas que após serem escolhidas diante da contingência das coisas no tempo presente e depois de serem efetivadas constituem, paulatinamente, o que realmente somos. Percebemos, ao assistir o longa, que as escolhas feitas no primeiro filme dedicado à Mulher Maravilha, resultam no seu desejo que ordenou boa parte do presente roteiro.

Steve, como mencionado, para salvar a humanidade, pilota o avião carregado de bombas, sobe o mais alto possível e explode junto com a aeronave. Diana vence o vilão, mas permanece sem o seu grande amor. Na segunda edição do filme, ela tem a oportunidade de ter o seu amado de volta e o faz desejando silenciosamente em seu coração. Todavia, o que ela desejava já não estava mais como uma possibilidade no tempo presente, mas sim se apresentava como uma possibilidade do passado, daquilo que havia sido efetivado. Ela desejou viver sob o julgo de uma mentira. Mentira compreendida no sentido do não-real; do não-possível no presente efetivo a não ser por uma milagrosa pedra do desejo que transforma o que é, o ser, no que não é, no não-ser.

Sem me prolongar, acredito que o filme traz à nossa realidade a possibilidade de reflexão para saber olhar a vida como sendo o resultado de nossas escolhas. Isto é, a realidade que escolhemos atualizar – tornar presente – em determinado momento em que ela era apenas uma possibilidade do real. Ora, se a nossa escolha nos trouxe até onde estamos, seja como indivíduo ou como humanidade, somos sujeitos de nossa história individual e comunitária.

Desejar transformar os fatos do passado apenas nos coloca em uma realidade ilusória que tirará a nossa atenção sobre os aspectos mais importantes de nossa atual e presente existência. Com essa hipotética possibilidade, viveríamos sobre uma mentira, pois o real não é aquele desejo, mas o que vivemos no presente e, positivamente, o que poderemos viver no amanhã. O presente do passado nos ajuda a mudar a nossa história, mas não podemos mudar o que já fora efetivado. Sendo assim, o convite que permanece é para que possamos voltar o nosso olhar ao presente do passado em nossa memória com gratidão e procurar compreender que o agente dessa história somos nós. Que a responsabilidade é inteiramente nossa e, a partir disso, olhar o presente atual com a sua contingência e escolher o que melhor corresponde com a nossa vontade individual, mas sem ignorar o nosso ser que é humano e corresponsável pelo todo criado.



Frei Uellinton Valentim Corsi, OFM


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