Quaresma, um convite ao essencial

Iniciamos o tempo da Quaresma, que é marcado por um forte apelo à conversão, buscando a reconciliação com Deus, Pai misericordioso e justo. Quando falamos de conversão, podemos ter presente tantas situações que tocam a vida das pessoas, da humanidade e a nossa Casa Comum, onde vivemos. Tudo isso certamente revela a nossa sensibilidade, em relação àquilo que fere e fragiliza a vida humana, mas também a vida das criaturas presentes na natureza.

Creio que o apelo da Quaresma, além desse olhar para um horizonte mais amplo, é um convite para mudarmos, e para melhor, o nosso relacionamento com Deus, mas também com as pessoas que estão ao nosso lado no dia a dia. E o tempo favorável para tomar uma decisão de mudar a nossa vida é hoje, não amanhã. Lembrando que a porta da graça se abre de modo particular no tempo da Quaresma, onde somos convidados a renovar a nossa fidelidade a Deus e aos homens.

Empenhemo-nos com humildade na busca da conversão do coração, para acolhermos a Palavra de Deus e, através da escuta silenciosa, saber ouvir o que ele tem a nos dizer neste tempo de Quaresma, marcado pela pandemia, pela dor do luto e a esperança que levamos dentro de nós, às vezes ferida e fragilizada pelas provações que passamos. Como homens e mulheres que crêem na força da fé no Cristo Jesus ressuscitado, não podemos deixar que se apague aquela chama tênue, que ilumina os nossos passos em direção ao portal do futuro, mesmo em meio à escuridão das incertezas que nos cercam no momento.

À luz da Palavra de Deus, a caminhada penitencial da Quaresma, marcada pela oração, o jejum e a caridade, pode ser acolhida como um tempo santo, que nos faz voltar ao essencial, fazendo jejum daquilo que não é necessário, dedicando mais tempo à oração pessoal e ao cuidado da nossa vida interior, praticando também gestos de caridade que vão além da simples esmola, que expressam doação de si, para cuidar da vida do outro, dos enfermos, dos menos favorecidos, para ajudá-los a superar a situação em que se encontram.

Como discípulos e discípulas do Senhor Jesus, acreditamos no diálogo, que nos une para construirmos pontes que favoreçam a paz e o cuidado daqueles e aquelas que clamam por compaixão, ao invés de gastarmos energias erguendo muros para proteger o individualismo, o egoísmo e a indiferença, que nos corroem interiormente, humanamente e espiritualmente, nos tornando cegos diante da dor que toca a realidade de vida dos irmãos e irmãs, cuja existência é constantemente marcada por ameaças à vida, dom de Deus. Precisamos nos abrir ao diálogo, para podermos compreender a dor que atinge e aflige também quem está ao nosso lado, nas famílias, no mundo do trabalho, nas comunidades de fé, na política e nas várias realidades da nossa sociedade.


Dom José Gislon - Bispo da Diocese de Caxias do Sul

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